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segunda-feira, 27 de julho de 2015

sem título

Consistência de fogo
sitiado pelo pranto.

Aquilo que primeiro se ama
são os olhos: porque incendeiam
com a sua luz a existência
reunida, olhando-se.

Mas a luz é uma causa
mortal. Ferido de transparência,
o meu coração oculta-se
e recolhe-se à beleza.


António Gamoneda

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Aqui tive um amor, uma impura
floração de sangue enamorado,
mas do sangue mais desesperado
onde a luz não existe na sua treva densa.


Desapareces como um anjo; como a escura
dor da juventude; como um gládio
de amargura e de vento, derrotada
pelo ferro e a sede da ternura.


Em ti acaba a noite, e na tua margem,
a água amante e a paixão mordida,
e, na tua boca, a minha verdadeira.


Unicamente porque morre, canta
a minha palavra nua e retorcida:
em direcção a ti, como um punho, se levanta.


António Gamoneda