Mostrar mensagens com a etiqueta rosa do mundo 2001. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta rosa do mundo 2001. Mostrar todas as mensagens

sábado, 12 de novembro de 2016

Só quem todos os dias vai morrer...

.
.
.
Só quem todos os dias vai morrer
pode cantar assim.
Era como cantariam
As torrentes
as grandes ervas bravas
a montanha.
O vosso coração continha udo
dentro de si:
ervas, águas, montanha,
humano coração
maior que a morte.




elena bono
rosa do mundo
2001 poemas para o futuro
trad. jorge de sena
assírio & alvim
2001

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O MAR

O MAR
(Elegia)

Ó mar silencioso, mar de lazúli.
Eis-me enfeitiçado no teu abismo.
Estás vivo, respiras; de pensamento inquieto
e amor ansioso te insuflas, ó mar.
Ó mar silencioso, mar de lazúli,
abre-me o teu segredo mais profundo:
o que move o teu seio infinito?
Com que respira o teu peito tenso?
Talvez, de todo o jugo terrenal,
Te atraia o céu longínquo e claro?...
Cheio de vida misteriosa e branda
se, límpido, olhas o límpido céu:
corre em ti o seu azul luminoso,
ardem em ti sua aurora e ocaso,
afagas-lhe as nuvens de ouro e brilhas
alegre no brilho das suas estrelas.
Mas quando as nuvens negras conspiram
para roubar-te a visão do céu claro-
estrebuchas e uivas, levantas a crista
das ondas, rasgas a bruma adversa...
E vai-se a bruma, espantam-se as nuvens,
mas, tomado da recente inquietude,
ainda ergues ondas assustadas,
o brilho afável dos céus devolvidos
não te devolve a paz e o sossego;
é enganador teu espelho parado:
no abismo calmo escondes a ansiedade,
quando miras o céu tremes por ele.

Vassíli Jukóvski (1783-1852)

in rosa do mundo 2001 pág. 1024


.

[Desde que eu o vi, ]



Desde que eu o vi,
Cega julgo estar;
Só a ele vejo,
Olha pra onde olhar;
Com a sua imagem
Sonho em pleno dia,
Vem das trevas, sobe,
Clara de harmonia.
Sem ele tudo é
Sem luz e sem cor,
Já não me apetece
Coas irmãs brincar;
Agora só quero
No quarto chorar;
Desde que eu o vi,
Cega julgo estar.


Adelbert Von Chamisso (1781-1838)

Trad: João Barrento

in Rosa do Mundo 2001

Se amas o negro



Se amas o negro
Karoline von Günderode (1780-1806)

Se amas o negro
Das noites de orvalho
Abominas a manhã.
Se te perdes no vermelho da tarde
Suspiras à mesa
Afastas a taça
Dos lábios.
Se não amas os prazeres da caça
Não te seduz a fama
Nem o clamor das batalhas.
Se as flores murcham
No teu peito mais depressa
Do que é normal
O sangue invade-te
Palpitante o coração.

tradução de João Barrento


.

domingo, 9 de outubro de 2016

ECOS DA MÚSICA DE BEETHOVEN

ECOS DA MÚSICA DE BEETHOVEN


Feliz aquele que, livre dos sentidos,
Paira como um espírito sobre as águas,
E não como um navio, mudando
Com o temo as bandeiras, e as velas
Enfunando ao sabor dos ventos.
Não, livre dos sentidos, como o Deus,
Conhecendo-se apenas e criando a obra,
Cria o mundo, ele próprio.
E é esse o pecado do homem,
E não foi essa a sua vontade!
Mas tudo está dividido.
A ninguém foi dado tudo, pois tudo
Tem senhor, só o Senhor não:
Solitário, a ninguém serve.
Como o poeta.

Clemens Brentano (1778-1848)


Trad. JoãoBarrento

in Rosa do Mundo 2001, pág. 1014

À Esperança

À esperança (Portuguese)


Meteoro com
terrestres que lança,
tem de Deus o tom
falsa cega Esperança!
Criou-se pra ela
homem infeliz,
e, anjo que vela,
saúda sem vis. –
Espelhas, boca lisa,
o quê? ris, porquê?
Porque se tamisa
duvidoso qu'rer?
Sê sozinha aí!
Fui encorajado;
vozes lindas cri:
inda enganado.

Plantaste narcisos
plo meu jardim fora;
regato de guizos
regou minha flora;
mil flores verteste
em mim - Primavera -,
e sorte celeste
seu perfume era.
Cedo, pensamentos
iam, laboriosas
abelhas, no quente,
para as frescas rosas.
Na minha alegria,
algo me faltava:
de Lilla pedia
coração; céu dava.

Ai, perderam sede
rosas frescas; minhas
fontes, troncos verdes,
secaram, asinha;
Primavera cor,
triste Inverno cedo;
bom mundo anterior
fez-se arremedo.
Oh! deixasses só
Lilla, só aqui:
meu canto de dó
não se queixaria.
Em seus braços bem
esquecia tristeza,
sem invejar quem
se fez realeza.

Deixa-me, Esperança!
Oh, entregue a mim;
que dura avança
minha morte assim.
Sinto dividida
força que em mim era –
quer alma sem vida
céu; meu corpo, terra.
O prado, vazio,
os campos, queimados,
o parque sem pio,
noite nos dois lados. –
Gentis doces trilos!
Quadros de mil têmperas!
Qu'rer! Esperança! Lillas! –
Adeus, para sempre!


Source of the quotationAntologia da Poesia Húngara. Âncora Editora, Lisboa, [2002.] p. 61.


rosa do mundo 2001, Csokonai Vitéz Mihály pág 1011