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segunda-feira, 25 de maio de 2015





e a música, a música, quando, como, em que termos

extremos

a ouvirei eu,

e ela me salvará da perda da terra, águas que a percorrem,

tão primeiras para o corpo mergulhado,

magníficas,

desmoronadas,

marítimas,

e que eu desapareça na luz delas -

só música ao mesmo tempo nos instrumentos todos,

curto poema completo,

com o autor cá fora salvo no derradeiro instante

numa poalha luminosa?




Servidões, Herberto Helder, Assírio & Alvim, p. 55.


As flores nascem, amadurecem, completam-se,
abrem corolas.
- De dentro de ti saem as flores do canto:
derrama-las sobre os homens, sobre eles as esparzes:
tu és cantor!
- Frui do canto, todos vós,
frui, dançai, entre as flores respira o canto:
e eu, cantor, respiro no meu canto!

Poemas Ameríndios
mudados para português
Herberto Helder"

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Shelley sem anjos e sem pureza



Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te,mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que te há-de trazer e nos há-de de deixar sós



Eugénio de Andrade
de As Mãos e os Frutos