Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens

sábado, 17 de junho de 2017



Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava…
Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão…
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.
Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy….
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.
Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança…
David Mourão-Ferreira, in Infinito Pessoal


.



Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher 
nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias
e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança
da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo
incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os 
trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e 
falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade. 

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los 
da dor como aos filhos que não iremos ter nunca
porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão 

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem
cartas mais tarde - uma ou duas para se aliviarem dessa espada.
E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem. 

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, ed. Quetzal 


.

sábado, 4 de março de 2017

[Eu quero uma licença de dormir,]

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
Adélia Prado

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

[ Em que língua se traduz a chuva? ]

" ¿ A qué lengua se traduce la lluvia ?

       ¿ Cuántas sílabas forman el perfume que la rosa destila ?

       ¿ Con qué rimas uncirías las olas de la playa ?

       ¿ serías capaz de discernir los hemistiquios en el beso último de dos amantes y ponerle acento al
       silencio sutil de sus pupilas ?

       ¿ Qué humana ortografía serviría para ese ladrido a lo lejos que se oye en plena noche o para el
       pulso que late en yodo astro, incluso muerto?

       Dime con qué alfabeto se transcribe el sueño de la vida,

       dímelo sin palabras, que son merma,

       sin rima, sin acentos, sin medida,
       y luego, habla "

              Andrés Trapiello.

Em que língua se traduz a chuva?
Quantas sílabas formam o perfume que a rosa destila?
Com que rimas unirias as ondas da praia?
Serias capaz de discernir os hemistiquios no último beijo dos amantes e pôr acento ao silêncio subtil de suas pupilas?
Que humana ortografia serviria para esse ladrido que ao longe se ouve em plena noite ou para o pulso que late em iodo astro, incluso morto?
Diz-me com que alfabeto se transcreve o sonho da vida,
diz-mo sem palavras, que são restos,
sem rima, sem acentos, sem medida,
e logo, fala.

Andrés Trapiello.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

[ Se esta noite a sombra...]

" Si esta noche la sombra
       cayó sobre la sombra,
       y el silencio su sello puso
       sobre labios ya mudos,
       qué puede sorprenderte.

       Si aquel calor es una historia antigua
       y sus cenizas las esparce el viento.

       Qué puede sorprenderte,
       si ya tanto llovió sobre mojado "

          Ángeles Mora.



Se esta noite a sombra
caiu sobre a sombra
e o silêncio seu sêlo pôs
sobre lábios já mudos,
o que pode surpreender-te.

Se aquele calor é uma história antiga
e suas cinzas as espalha o vento.

o que pode surpreender-te,
se já tanto choveu sobre molhado.


Ángeles Mora.

trad. antónio carneiro

domingo, 13 de novembro de 2016

[ Tem seus prazeres o Inverno]

A Prima


Tem seus prazeres o Inverno; e ao domingo, às vezes.
se o sol pousa na neve dos jardins burgueses,
a gente sai com a prima a passear...
- E não se esqueçam lá da hora do jantar -

- é o que a mãe diz. E quando nós já vimos todos
os vestidos em flor passando entre o arvoredo,
a menina tem frio... e lembra com bons modos
como a névoa da tarde vem chegando cedo.

Voltamos para casa recordando o dia
que tão rápido foi... e que tão pouco ardia...
E do fundo da escada cheira-se esfomeado
o perfume, lá em cima, do peru assado.


in Poesia de 26 Séculos (Inova, 1972)


Um poema de Gérard de Nerval, traduzido por Jorge de Sena

[ Às vezes o presente tem presença a mais,]

.
.
.
Às vezes o presente tem presença a mais,
presente de mais.
Sente-se a luz a passar nos dedos,
as casas a encolher.
É preciso então orientar o tempo,
traçar um caminho,
azangar um fosso,
seguir uma formiga,
caminhar só.


Louise Warren

(Trad. A.M.)

VÍSPERA DE QUEDARSE

VÍSPERA DE QUEDARSE



Todo está preparado: la maleta,
las camisas, los mapas, la fatua esperanza.

Me estoy quitando el polvo de los párpados.
Me he puesto en la solapa
la rosa de los vientos.

Todo está a punto: el mar, el aire, el atlas.

Sólo me falta el cuándo,
el adónde, un cuaderno de bitácora,
cartas de marear, vientos propicios,
valor y alguien que sepa
quererme como no me quiero yo.

El barco que no existe, la mirada,
los peligros, las manos del asombro,
todo está preparado: en serio, en vano.


Juan Vicente Piqueras



Está tudo pronto, a mala,
as camisas, os mapas, a fátua esperança.

Estou a tirar o pó das pestanas
e já pus na lapela a rosa dos ventos.

Está tudo, o mar, o vento, o atlas.

Falta só o quando,
o onde, um diário de bordo,
cartas de marear, ventos propícios,
coragem e alguém que saiba
querer-me como nem eu mesmo me quero.

O barco inexistente, o olhar,
os perigos, as mãos do assombro,
está tudo pronto: a sério, em vão.
 

(Trad. A.M.)

[ Qué poco necesita el hombre...]

.
.
.
Qué poco necesita el hombre
que no quiere nada más que vivir.
Y ese poco sobra esta mañana
en que tras la tormenta
brilla el sol sobre la nieve
y es tan hermoso el mundo
que morir y vivir
no parecen cosas diferentes.


JOSÉ LUIS GARCÍA MARTÍN
Presente continuo
Impronta, Gijón (2015).
.
.
Quão pouco necessita um homem
que não quer mais do que viver.
E esse pouco sobra esta manhã
em que depois da tormenta
brilha o sol sobre a neve
e é tão belo o mundo
que morrer e viver
não parecem coisas diferentes.
.
.
.
José Luis Garcia Martin

[ Tanto de meu estado me acho incerto,]

.
.
.
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nu~a hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar u~a hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.


Luís de Camões

.

[ Dizias que nos sobram as palavras:]

MÚSICA CALADA



Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.

E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.

Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar.


LUÍS FILIPE CASTRO MENDES
Poesia Reunida (1985-1999)
Lisboa, Quetzal (1999)

[ Que inmensa la tristeza de un cuerpo que has amado,]

MÁS RAZONES PARA LA ESCRITURA




Que inmensa la tristeza de un cuerpo que has amado,
qué abandono tan cruel su peso entre las sábanas
señalando inequívoco las ausencias futuras:
la muerte, el desamor, la enfermedad, el tiempo.
Perfecto en su belleza de un instante. Inasible.
No hay modo
de retenerlo así. Ni las palabras
podrían suspender esa condena
de la fugacidad: escribe y calla.
Que un verso lo sostenga en el vacío,
que milagrosamente se eternice
cuanto vas a perder.
No es suficiente
que hayas amado mucho y hasta el fondo.
Antes de que la luz se apague, escribe.
Escribe, escribe,
simplemente escribe.

Josefa Parra




Que imensa tristeza a de um corpo que amaste,
que cruel abandono seu peso nos lençóis,
assinalando as ausências futuras,
a morte, o desamor, a doença, o tempo.
Perfeito em sua beleza de um instante. Intocável.
Não há meio 
de retê-lo assim. Nem as palavras 
poderiam suspender a sentença
da fugacidade, escreve e cala-te.
Que um verso o sustenha no vazio,
que milagrosamente se eternize
aquilo que vais perder.
Não basta 
que tenhas amado muito e até ao fundo.
Antes de a luz se apagar, escreve.
Escreve, escreve,
simplesmente escreve.


(Trad. A.M.)

.
VISIT WEBSITE

sábado, 12 de novembro de 2016

[ Que mãos são estas que retiram do solo...]

Que mãos são estas que retiram do solo
uma infinita tristeza?
Que sombras confere a luz das estrelas?
Que vozes de água vertem as lágrimas
desta mulher jovem?

Tudo tão perto.
Tudo tão cego.

Corpos transparentes e submersos
feitos de entrega.



maria azenha
a casa de ler no escuro
editora urutau
2016

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

[ É assim que muda o vento:...]

É assim que muda o vento:
Como os pensamentos de um velho humano,
Que pensa ainda ardentemente,
Desesperadamente.
O vento muda assim:
Como uma humana sem ilusões,
Que sente ainda coisas irracionais dentro de si.
O vento muda assim:
Como humanos chegando irritadamente.
É assim que muda o vento:
Como um humano, pesado, pesado,
Que quer lá saber.


wallace stevens
harmónio
trad. jorge fazenda lourenço
relógio d´água
2006

[ Do not go gentle into that good night,]

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Dylan Thomas, 1914 – 1953

[ Quiero otras sombras de oro, otras palmeras...]

" Quiero otras sombras de oro, otras palmeras
         con otros vuelos de aves extranjeras,
         quiero calles distintas, en la nieve,
         un barro diferente cuando llueve,
         quiero el férvido olor de otras maderas,
         quiero el fuego con llamas forasteras,
         otras canciones, otras asperezas,
         que no haya conocido mis tristezas "

           Silvina Ocampo ( 1903-1993 )

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

[ Qual é que morreu em tua lua?]

 " Cuál ha muerto en tu luna? Quién
       de tantos
       que fuí Y a cuál amaste ?

       Oh silencioso río.
       Amargos navegantes llevas "

            José María Álvarez.


" Qual é que morreu em tua lua? Quem
       de tantos
       que fui e a qual amaste ?

       Oh silencioso rio.
       amargos navegantes levas "

            José María Álvarez.
tradução de antónio carneiro

terça-feira, 8 de novembro de 2016

[ Llueve el otoño aún verde como entonces...]

" Llueve el otoño aún verde como entonces
             Sobre los viejos mármoles,

         Con aroma vacío, abriendo sueños,
             Y el cuerpo se abandona.

         Hay formas transparentes por el valle,
             Embeleso en las fuentes,
         Y entre el vasto aire pálido ya brillan
             Unas celestes alas.

         Tras de las voces frescas queda el halo
             Virginal de la muerte.
         Nada pesa ganado ni perdido.
              Lánguido va el recuerdo.

          Todo es verdad, menos el odio, yerto
              Tal ese gris celaje,
          Pasando vanamente sobre el oro,
              Hecho sombre iracunda "

              Luis Cernuda ( 1902-1963 )

[ Me parecia que este dia sem ti tinha que ser inquieto,]



"Me parecia que este dia

sem ti

tinha que ser inquieto,

escuro. No entanto, está cheio

de uma doçura estranha, que aumenta

com o passar das horas

como a terra

depois de uma chuvada,

deixa-se sozinha em silêncio para beber

a água caída,

e pouco a pouco

em suas veias mais profundas

ela se sente penetrada.




A felicidade que era ontem angústia,

tempestade,

volta agora em breves

ondas ao coração

como um mar apaziguado.

Sob o sol suave reaparecido brilham

cândidas ofertas:

as conchas que a onda

deixou na praia.



Antonia Pozzi (1912-1938) (Tradução de Herme G. Donis)

tradução de antónio carneiro

[ Me parecía que este día sin ti tenía que ser inquieto,]

" Me parecía que este día
      sin ti
      tenía que ser inquieto,
      oscuro. Sin embargo está lleno
      de una extraña dulzura, que aumenta
      con el paso de las horas
      igual que la tierra
     después de un chubasco,
     se queda sola en silencio para beberse
     el agua caída,
     y poco a poco
     en sus venas más profundas
     se siente penetrada.

     La felicidad que ayer fue angustia,
     tempestad,
     vuelve ahora en breves
     oleadas al corazón
     como un mar apaciguado.
     Bajo el suave sol reaparecido brillan
     cándidas ofrendas :
     las conchas que la ola
     dejó en la orilla.
  
       Antonia Pozzi ( 1912-1938 ) ( Traducción de Herme G. Donis )