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segunda-feira, 26 de junho de 2017




Agradezco a los árboles sus sombras,
 la protección delgada de sus troncos.
 Al banco la amistad de su respaldo
 y a los faroles su bombilla rota.

 Agradezco a las calles sus esquinas,
 sus rincones oscuros como nidos,
 sus portales sin nadie, resguardados
 de la lluvia y el viento y las miradas.

 Agradezco a los cines sus butacas,
 su oscuridad amiga de los labios,
 y a la tarde su luz porque se marcha
 para que venga el beso y el abrazo.

 Ciudad donde yo amé: ya tiempo y tiempo
 ha pasado de aquel beso primero.
 Hoy te agradezco todos tus paseos,
 tus calles y tus plazas, tus tranvías,

 tus barrios pobres, cómplices de amor,
 toda tu oscuridad amada y triste,
 donde ha nacido, sin embargo, el beso
 largo y continuo en el que vivo ahora.


Jesús López Pacheco




Agradeço à árvore sua sombra,
a protecção delgada do tronco.
Ao banco a amizade do apoio
e ao candeeiro a lâmpada partida.

Agradeço à rua sua esquina,
seus cantos escuros como ninhos,
seus portais sem ninguém, protegidos
da chuva, do vento e dos olhares.

Agradeço ao cinema seus lugares,
a escuridão amiga dos lábios,
e à tarde sua luz porque se vai
para que venha o beijo e o abraço.

Cidade onde em tempo amei, e o tempo 
passou desse beijo primeiro.
Grato te estou por tuas avenidas,
teus eléctricos, ruas e praças,

teus bairros pobres, cúmplices de amor,
tua escuridão amada e triste.
onde contudo nasceu o beijo
em que vivo agora, longo e contínuo.


(Trad. A.M.)

sexta-feira, 10 de março de 2017

ENTRE MARÇO E ABRIL


Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva,
me traz o sol,
me traz o rosto,
entre março e abril,
o rosto que foi meu,
o único
que foi afago e festa e primavera?

Oh cheiro puro e só da terra!
Não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem
o coração às rosas;
mas das tímidas, dóceis flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel,
abertas no canteiro junto ao tanque.

Frésias,
ó pura memória
de ter cantado –
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
– que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?


EUGÉNIO DE ANDRADE

[Não acreditávamos nos velhos provérbios]

Não acreditávamos nos velhos provérbios
que vaticinam que a ventura é breve
e o amor
um enganoso fruto de coração incerto.

Não acreditávamos nos velhos provérbios
e fizemos bem,
quem poderá negar que durante um tempo
fomos felizes, semelhantes a deuses,
que nunca então o medo nos tocou
nem era possível incerteza nos nossos sonhos.

Não acreditávamos nos velhos provérbios…
Mas isto era ainda no tempo em que
desconhecíamos as sombras e os ardis
os tribunais funestos que o amor ampara
e os tributos amargos que depois exige o desamor.



silvia ugidos
poesia espanhola anos 90
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2000

quarta-feira, 8 de março de 2017

[Amai para entendê-las!]


“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
Olavo Bilac

domingo, 5 de março de 2017

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados.

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania.

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.


Bocage

quinta-feira, 2 de março de 2017



Quando este silêncio

se instala e o caminho

parece tomado de



uma névoa intensa,

tão intensa que nos cega...

quando candeia alguma



se insinua... regresso

ao teu rosto, aos olhos

teus que tudo iluminam,



ao teu corpo, ao menino.

ao luar, aos anjos, às

palavras, inevitáveis



lugares deste encontro,

deste dédalo solar

que o jacto de sangue é.



Mário Avelar, Pelas Mãos de Mussorgsky numa Galeria com Anjos (2000)

quarta-feira, 1 de março de 2017

[Nothing gold can stay.]



.
Nature’s first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf’s a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.



Robert Frost

sábado, 3 de setembro de 2016

[ lá longe ]



.
lá longe
uma praia cheia de sonhos
em que tu és uma estrela que desceu ao mar
e porá um pássaro de carícias
no peito dos que a amarem.
.
.
.
antónio carneiro


(facebook 16/5/2016)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

[Hoje está um dia de chuva]

*
.
Hoje está
um dia de chuva.
.
Não me assusta,
saberei acabar com a cinzentude
e criar sóis.
.
cá estarei eu
incorrigivelmente
a cantar
a promessa dos braços
de minha amada
mesmo que à chuva.
.
- Não pode um homem
viver
sem a visão de um infinito
em seu vazio
ou de uma mulher despida
a sorrir-lhe
na feitura de um poema.
.
Que por ela se escreva amor em cada pingo que caia.
.
(...aj c.)

sexta-feira, 18 de março de 2016

Aubade

I work all day, and get half-drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see what's really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.
The mind blanks at the glare. Not in remorse
- The good not done, the love not given, time
Torn off unused - nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast, moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear - no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anasthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,
A small, unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we can't escape,
Yet can't accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.