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sábado, 30 de janeiro de 2016

Quem é o selvagem efusivo e cordial?
Está à espera da civilização ou ultrapassou-a, fazendo-a sua?

Será do Sudoeste, criado ao ar livre? Canadiano?
Das terras do Mississípi? De Iowa, Oregon, Califórnia?
Das montanhas? Das pradarias, dos bosques? Ou virá dos
mares?
Aonde quer que vá, homens e mulheres aceitam-no e
desejam-no.
Desejam que goste deles, que os toque, que lhes fale, que
fique com eles.
Conduta sem lei como as flores de neve, palavras simples
como a erva, cabelo despenteado, riso e inginuidade,
Passos lentos, traços comuns, modos comuns, e comuns
exalações,
Descendo em novas formas das pontas dos dedos,
Impregnados do odor do seu corpo ou da sua respiração,
nascendo do seu olhar.

[WALT WHITMAN (1819 - 1892)]
(Folhas de Erva)
(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

sábado, 16 de janeiro de 2016

Faz-se Luz

Faz-se luz pelo processo 
de eliminação de sombras 
Ora as sombras existem 
as sombras têm exaustiva vida própria 
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela 
intensamente amantes    loucamente amadas 
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta 
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem 

Por outro lado a sombra dita a luz 
não ilumina    realmente    os objectos 
os objectos vivem às escuras 
numa perpétua aurora surrealista 
com a qual não podemos contactar 
senão como amantes 
de olhos fechados 
e lâmpadas nos dedos    e na boca 

Mário Cesariny, in "Pena Capital"