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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Sobre uma Estátua

Quê?! Nesta estância balnear
— Repouso, tréguas, paz — contigo
De face ou dorso venho dar,
Ganímedes, meu belo amigo!

Arrebata-te a águia, acaso
Com pena, do meio das flores;
Avara de efusões sua asa
Parece querer-te, se tu fores.

Oh! Não prò Júpiter tirânico,
Mas «pràs nuvens», talvez, plo visto.
E aquele olho que me dá pânico
Lança-te um olhar bem esquisito…

Fica connosco, ó bom rapaz!
Todo este tédio em que me movo
Distrai-o tu, como és capaz.
Pois não és nosso irmão mais novo?

Paul Verlaine (1844-1896)
Hombres — e algumas mulheres
(tradução de Luiza Neto Jorge, apresentação de Aníbal Fernandes)

domingo, 2 de abril de 2017


T. de Pascoaes

Não digo que a escuridão seja um resíduo cromático 
do poente. Coloco o nada no horizonte a órbita 
da Lira. A noite é uma vala crematória 
onde está sepulta e incolor a Antiguidade. 

Parei no pórtico Aristóteles poisara as aves 
numa uva. Eu bendisse o estilo e dissuadi 
o crente imaginário que respondera ao eco. 
Comparo os símbolos dos poetas do Orfeu 
com os da alquimia. 

Todos os que haviam descrito o inferno se exaltaram 
Pascoaes não fora o último emissário 
de que por detrás das colunas fictícias de uma noite 
fica nítido o passado memorável para o futuro. 

Anoto a noite com o mito de que o nocturno 
é um idioma. Vi cada árvore dissolver as linhas 
de incisão o cume engrandecer a curva 
o Regresso às crostas do pó estrelas cristalinas.

Fiama Hasse Pais Brandão (1939-2007)
Obra Breve

domingo, 22 de janeiro de 2017

*


[JÁ FLAMEJA]

Já flameja a melancia. A noite
cai mais densa. E tu regressas
um tanto triste ao meu ardor.

[SANDRO PENNA (1906 - 1977)]
(No Brando Rumor da Vida)
(tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)
(in Poemário Assírio & Alvim 2013)

*

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Cartinha Aberta ao Major Otelo
Saraiva de Carvalho


O major Otelo Saraiva de Carvalho diz-nos que só aceitará «a candidatura por uma verdadeira imposição popular».
Raul Rego, in A Luta, 10.5.76

«Imposição popular»,
major Otelo, jamais!
Nos versos, o pé quebrar 
não faz mal, vem nos jornais…

Pé quebrado na política, 
mais tempo leva a soldar. 
Aos que lhe fazem requebros,
mande-os altoduquear.

Sua página está escrita
e dela guarda memória
o povo, que não impõe
as estórias à história.

Em vinte e cinco de Abril
sua página foi escrita. 
Não há rasura possível. 
É uma página limpa.

E uma página linda,
Otelo, meu capitão!
Que mais quererá ainda
com a palavra «imposição»?

Que venha a vaga de fundo
que o há-de levar ao cume
do tal poder popular?
Presidente, dê-me lume, 
vamos mas é charutar…


Alexandre O’Neill (1924-1986)
Anos 70 – poemas dispersos
(edição de Maria Antónia Oliveira e de Fernando Cabral Martins, prefácio de Vítor Silva Tavares, desenhos de Luis Manuel Gaspar)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Joane

Nesse tempo, esperava crescer para molhar o pão no vinho. Jogava à bola na grande garagem e corria sempre, quase distraído. 
Não sabia ainda um nome para as coisas. Contava os passos e prendia o amigo. Subia às árvores, derrubava ninhos e fugia. Havia apenas o monte e esconderijos nos penedos. E a mina, escura. 
Os dias passavam sem que me lembrasse. Uma espécie de sol me protegia.

Mário Rui de Oliveira (1973)
O Vento da Noite
(prefácio de Eugénio de Andrade)

terça-feira, 6 de setembro de 2016

[Se da boca de Ossian canto e gesta]

Se da boca de Ossian canto e gesta
Não ouvi, nem provei do vinho antigo,
Por que vejo um recanto de floresta
Sob a lua da Escócia em sangue vivo?

Súbito no silêncio me golpeiam
Gritos de harpa e corvo em seu chamar,
As vestes dos guerreiros me lampejam
Pelos olhos sob o sangrento luar.

Maravilhada herança me proveio
De longínquos cantores: errantes sonhos.
De próximos e parentes por direito
Desprezamos as vozes enfadonhas.

Mais de um tesouro, os netos evitando,
Quem sabe nos bisnetos vá tombar;
O bardo comporá o alheio canto
E como seu o irá proclamar.

Ossip Mandelstam (1891-1938)
Guarda Minha Fala para Sempre
(tradução de Nina Guerra e de Filipe Guerra)

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Cumulo-Stratus

é a configuração que acaba de ser descrita, quando as duas formações nebulosas do já referido stratus e do cumulus que se segue ainda estão juntas, sem que se verifique qualquer separação entre elas.

Johann Wolfgang Goethe (1749-1832)
O Jogo das Nuvens

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

[…]

Quando reflicto sobre quão reais e verdadeiras são para o louco as coisas da sua loucura, não posso deixar de concordar com a essência da declaração de Protágoras de que «o homem é a medida de todas as coisas».

Fernando Pessoa (1888-1935)
Aforismos e Afins

terça-feira, 19 de julho de 2016



A natureza é a diferença entre a alma e Deus.
Bernardo Soares


Fernando Pessoa (1888-1935)
Aforismos e Afins

sábado, 16 de julho de 2016

Sérgio

Onde agora estás não alcançam
o clamor dos magistrados
nem a faca do assassino.
A tua própria morte não te pertence já,
é assunto nosso, desprovido e inerte.
Que faremos nós com o teu inúmero corpo,
como te diremos o que está a acontecer-te?

Fechou-se qualquer coisa qualquer porta
espessa e desabitada,
a faca pôs tudo como estava.

Sobram, inúteis, as lágrimas (mas isso que te importa?),
as últimas palavras, a última carta. 
Se não fosse essa faca seria outra faca
noutra noite noutra autoestrada
e se não fosses tu seria outro
do mesmo modo vivo e morto.

Manuel António Pina (1943)
Poesia, Saudade da Prosa — uma antologia pessoal

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Carteiro Cheval


Nós os pássaros que encantas sempre do alto desses belvederes
E formamos cada noite um ramo florido dos teus ombros aos braços do carrinho de mão bem-amado
Que nos soltamos do teu pulso mais vivos do que faíscas
Somos os suspiros da estátua de cristal que se soergue sobre o cotovelo quando o homem dorme
E brechas brilhantes se abrem no seu leito
Brechas por onde se avistam veados de cornos de coral numa clareira
E mulheres nuas num fundo de mina
Lembras-te levantavas-te então descias do comboio
Sem um olhar para a locomotiva enleada em imensas raízes 
barométricas
Que se queixa na floresta virgem com todas as suas caldeiras doloridas
As suas chaminés com fumo de jacintos e movida a serpentes azuis
Nós as plantas sujeitas a metamorfoses precedíamos-te então
E todas as noites fazíamos sinais que o homem pode surpreender
Enquanto vê a casa vir abaixo e se admira ante a engrenagem singular
Que a cama forma com o corredor e a escada
A escada ramifica-se indefinidamente
Vai dar a uma porta de meda de feno abre-se de súbito sobre uma praça pública
É feita de dorsos de cisne uma asa aberta para o corrimão
Gira sobre si própria como se fosse morder-se
Mas contenta-se em abrir sob os nossos passos todos os degraus como gavetas
Gavetas de pão gavetas de vinho gavetas de sabão gavetas de espigas gavetas de escadas
Gavetas de carne com puxador de cabelos
À hora exacta a que milhares de patos de Vaucanson alisam as penas
Sem te voltares tomavas a colher de pedreiro com que se fazem os seios
Sorríamos-te cingias a nossa cintura
E tomávamos as atitudes que o teu prazer ditava
Imóveis para sempre sob as pálpebras tal como a mulher gosta de ver o homem
Depois de ter feito amor

André Breton (1896-1966)
Poemas
(tradução de Ernesto Sampaio)

sexta-feira, 8 de julho de 2016

[Verbenas, perpétuas, violetas.]

Verbenas, perpétuas, violetas.
Seixos e areia a espaçá-las,
e o mirto enamorado a acalentar
a frieza da grade que cinge este recinto.

Não se saboreiam os dias,
o pão e o vinho aqui,
onde nem o vozeio do mar
encontra um peito
que o aceite como sua pulsação,
lacerando-se nas próprias cicatrizes.

Folhas, flores em que acreditamos
ao vê-las.
E até no halo
que as amplia, por nós criado
como incerto refúgio

em que nos expomos, indefesos,
ao crer que seguimos as raízes
deste exíguo jardim compadecido:

nelas descemos a tocar o que foi
rosto, alento, cabelos, mãos, palavras;
por elas se erguem para nós suas dádivas,

até nosso nome vivo nuns lábios, no olhar
que espelhava este azul
como se ele fora intacto sempre.

José Bento (1932)
Sítios

sábado, 2 de julho de 2016

Polisoir Milagroso

No inverno os gritos dos semáforos caem ao mar
crivados de vento e de crucificação
Numa gota do meu sangue pode afundar-se um barco

do meu sangue caindo sobre o peito
de uma marquesa Luís XV de espuma

Esta paisagem gela menos ao espelho
do que sobre as unhas dos mortos
que hão-de ressuscitar com os dedos em flor
flor de agonia extinta e de salvação

Dividida como um vale de Josafat
espera-a a risca do meu cabelo
enquanto Cristo condena
a virgem Maria com um penteador branco
dará um naco de pão aos condenados
e porá um pássaro de carícias
na testa dos que se salvarem

Luis Buñuel (1900-1983)
Os Poemas de Luis Buñuel
(tradução de Mário Cesariny)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

A natureza é a diferença entre a alma e Deus.
Bernardo Soares


Fernando Pessoa (1888-1935)
Aforismos e Afins
(edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha)

quinta-feira, 30 de junho de 2016

[Mas será que em vão guardamos
o coração no peito, em vão que]

Mas será que em vão guardamos o coração no peito, em vão que
Apenas nós, mestres e discípulos, esperamos? Pois quem
Quereria opor-se e impedir a nossa alegria?
O fogo divino também nos impele, dia e noite,
A partir. Por isso, vem! Para que contemplemos o espaço aberto,
Para que procuremos o que é nosso, por muito longe que se encontre.
Uma coisa é certa: quer ao meio-dia, quer
até à meia-noite, a todos é comum
Uma medida aplicada diferentemente a cada um,
E vai e vem assim cada um até onde pode.
Por isso à loucura exultante é grato troçar da troça,
Quando de súbito se apodera do vate na noite sagrada.
Vem, pois, ao Istmo! Onde o mar alto sussurra
Junto ao Parnaso e a neve rodeia de luz os rochedos délficos.
Vem à terra do Olimpo, aos cumes do Citéron,
Passar sob os abetos e os vinhedos donde
Se avista ao fundo Tebas e o Ismeno que rumoreja na terra de Cadmo
De onde o Deus que há-de vir se aproxima e para trás aponta.

Friedrich Hölderlin (1770-1843)
Elegias
(tradução e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado)

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Sagração de Enki-Du por sua Mãe Ninsun

A ti que não és raça dos cabeças negras
A ti ponho no chão da Egalmah
E ponho em ti o tirso do amável
E te dou nome Soldado de Anu
E te dou nome Pedra de Guilgamesh

Como o leão que na grande corrida mantém a cabeça imóvel
Sê barco do meu filho no mar perigoso
Na água a que não conhecemos o fundo
Na montanha do cedro a quem nunca ninguém viu a altura
Nos sete brilhos de Humbaba, causa de todo o mal.

Epopeia de Guilgamesh (c. séc. xxv a. C.)
inRosa do Mundo — 2001 Poemas para o Futuro
(tradução de Mário Cesariny)

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Miséria Humana

Que são os homens, pois? Da dor triste morada,
Bola de falsa sorte, fogos-fátuos do tempo,
Palco de acres temores, e agudo sofrimento,
Neve logo fundida, e uma vela apagada.

Foge-nos esta vida qual conversa fiada.
Os que ante vós despiram do corpo o fraco manto
E no rol dos defuntos deste açougue entretanto
Seus nomes inscreveram, deles não ficou nada.

Tal como um sonho vão facilmente é esquecido
E corre sem parar o rio não reprimido,
Assim se apagará nosso nome, honra e sorte.

O que agora respira, esfumar-se-á com o ar,
O que vier depois, à cova há-de ir parar.
Que digo? Que nos vamos, qual fumo ao vento forte?

Andreas Gryphius (1616-1664)
inO Cardo e a Rosa (poesia do barroco alemão)
(selecção, tradução e prefácio de João Barrento)

sábado, 11 de junho de 2016

A Sombra (tradução de um poema 
de uma língua desconhecida)

Foi ali que um dia sentiu desejos de partir também. Que ficava fazendo sozinha? Quem leva uma lança, leva a mulher também.

O seu xale negro tem um segredo, e o seu mal de morte vem do mesmo dia.

Os anos correram sem novas algumas, e as moças finaram--se velhas, velhas de tanto esperar.

E todas as noites, na margem sombria, uma silhueta franzina de trágica sonâmbula vai seguindo, como um braço murcho de cipreste a boiar ao de cima da corrente que o vai levando — mansamente.

José de Almada Negreiros (1893-1970)
Poemas
(edição de Fernando Cabral Martins, Luis Manuel Gaspar 
e Mariana Pinto dos Santos)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

[Não perscrutes o anónimo futuro,]

Não perscrutes o anónimo futuro,
Lídia; é igual o futuro perscrutado
Ao que não perscrutarás,
Quem o deu, o deu feito.

Disformes sonhos antecipam coisas
Que serão piores que os disformes sonhos.
No temor do futuro
Nos futuros perscrutamos [?].

Sabe ver só até o horizonte
E o dia, memora da flor hesterna
Mais que do melhor fruto
Que talvez não colhamos.

Ricardo Reis (Fernando Pessoa - 1888-1935)
Poesia
(edição de Manuela Parreira da Silva)

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Elegia V — Retrato Dele

Aqui está, toma o meu retrato; embora de ti me despeça
O teu no meu coração, onde habita a minha alma, habitará.
É como eu agora, mas se eu morrrer, será mais,
Quando formos ambos sombras, do que era antes.
Quando eu voltar gasto das intempéries, as mãos
Talvez rasgadas pelos remos rudes, ou curtidas dos raios do Sol
A minha face e o peito de silício, e a cabeça semeada
Com os eczemas dos cuidados das tempestades súbitas, 
O corpo num saco de ossos, quebrado por dentro,
E as manchas azuis da pólvora espalhadas na pele;
Se rivais loucos te acusarem de ter amado um homem
Tão imundo e rude como, ah! então poderei parecer,
Isto deverá mostrar o que eu era, e tu deverás dizer,
Será que as dores dele me atingem? Arruínam o meu valor?
Ou atingem-lhe a mente pensante, e ele agora
Amará menos o que tanto gostava de ver?
Aquilo que nele foi belo e delicado,
Era apenas o leite que no estado infantil do amor
O alimentava; o qual agora cresceu forte o bastante
Para se alimentar do que, a gostos desusados, parece rude.

John Donne (1572-1631)
Elegias Amorosas
(tradução de Helena Barbas)