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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

[ Há pequenas aves que têm raízes nas palavras,]

Há pequenas aves que têm raízes nas palavras,
essas palavras que não ficam arrumadas com decência
na literatura,
palavras de amantes sem amor, gente que sofre
e a quem falta o ar quando faltam as palavras.
Quando digo o teu nome há uma ave que levanta voo
como se tivesse nascido o dia e uma brisa
encarcerada nas amêndoas se soltasse para a impelir
para o mais frio, para o mais alto, para o mais azul.
Quando volto para casa o teu nome vai comigo
e ao mesmo tempo espera-me já
numa casa construída com dois nomes,
como se tivesse duas frentes,
uma para a montanha e outra para o mar.
Por vezes dou-te o meu nome e fico com o teu,
espreito então pelas janelas de onde
se vêem coisas que nunca antes tinha visto,
coisas que adivinhava mas que não sabia,
coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar.
Nessas alturas o meu nome é o teu olhar,
e os meus olhos são justamente a pronúncia do
teu nome que se diz com um pequeno brilho molhado,
um som pequeno como um roçagar de asas
dessas aves que constroem o ninho na folhagem da fala
e criam raízes fundas nas palavras vulgares
que os vulgares amantes engrandecem
quando falam de amor.
Joaquim Pessoa in
“GUARDAR O FOGO, cento e quatro inéditos e uma antologia

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Tenho todas as águas dentro de mim.

AMOR BREVE
*
Tenho todas as águas dentro de mim.
Os pássaros florescem nas margens dos meus braços
esperando o sol quando tu chegas mastigando
o meu último poema
com o corpo a abarrotar de promessas.
Bebo a tua boca, mordo a tua boca,
a tua boca morde-me, bebe-me, dá-me luz,
e então, como abelhas fabricando o mel da tarde
fazemos amor, fazemos doce com as cerejas da noite
até o novo dia me segredar baixinho
que o teu coração está de saída.
*
Inédito
para OS DIAS NÃO ANDAM SATISFEITOS,
a publicar.

Joaquim Pessoa