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segunda-feira, 13 de março de 2017

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errónea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

1931


fernando pessoa
poesias inéditas (1930-1935)
ática
1955

domingo, 16 de outubro de 2016

Qualquer Música…

Qualquer Música…

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música — guitarra,
Viola, harmónio, realejo…
Um canto que se desgarra…
Um sonho em que nada vejo…

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida…
Que eu não sinta o coração!

Fernando Pessoa (1888-1935)
Ficções do Interlúdio
(edição de Fernando Cabral Martins)

domingo, 1 de novembro de 2015


"Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar."


 
Fernando Pessoa

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

*





Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
é ouvi-lo já.
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias .
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.
És melhor do que tu
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê
Não: não digas nada!






Fernando Pessoa.