domingo, 5 de março de 2017

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Os pássaros
estabelecem diálogos
que ninguém entende
felizmente

Como tudo o que é puro
de raiz
o que os pássaros dizem
não se traduz


ALBERTO DE LACERDA
ÁtrioIN-CM (1997)



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ESCÁNDALO DE OLVIDO


Te llevaré como la caracola
lleva el rumor del mar entre sus dedos,
laberinto de viento y de sonaja,
ruido de selva, escándalo de olvido.
Te llevaré como la estela
de los barcos, perfume de eucalipto,
incienso de jardín, brasa de espuma
que purifica el fuego, escapulario
contra las rocas de los malos sueños.
Porque tu cuerpo suena por mi cuerpo,
tu lengua por mi boca, tu mirada
por el bosque abrasado de mis ojos.
Y no te olvidaré. No. Nunca. Nunca.
Aunque la mar desate sus delfines,
aunque la noche cambie en mediodía,
aunque mi corazón se haga ceniza.


Joaquín Benito de Lucas


Hei-de levar-te como leva o búzio
o rumor do mar dentro de si,
labirinto de vento e de chocalhos,
ruído de selva, escândalo de olvido.
Hei-de levar-te como a esteira
dos navios, perfume de eucalipto,
incenso de jardim, brasa de espuma
que o fogo purifica, escapulário 
contra as rochas dos maus sonhos.
Porque teu corpo soa por meu corpo,
tua língua por minha boca, teu olhar
pelo bosque abrasado de meus olhos.
E não te esquecerei, não. Nunca, nunca.
Mesmo que solte o mar seus delfins,
mesmo que mude a noite em meio-dia,
mesmo que se faça em cinza meu coração.

(Trad. A.M.)

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados.

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania.

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.


Bocage

sábado, 4 de março de 2017

Tão abstracta é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco‑os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter‑me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
        Do sonho e pouco da vida.

12-1911


fernando pessoa
obra poética e em prosa. vol. I
lello
Os animais que escrevem, é sempre interessante, fez notar
o sensível destino dos nossos chacinados
companheiros. removemos a terra
de norte a sul, à procura de maravilhosas tocas,
o mar entrava pelo quarto do segundo andar,
dormíamos dentro um do um, acordados
pela manhã tracejada de néon,
no céu e terra do soalho.

cabe-me agora a descrição cuidada
do mundo incomodado em que vivemos: secretários
sentados à secretária, ídolos
das nove às onze,
civilidades de médio centro urbano, parque incluído,
a leve bomba que cai na cabeça dos outros,
e o grande buraco nocturno do mar
a sorver loas.

é um país, não há que errar, talhado
para a aventura de queimar
papéis ou gente,
tão desigual aos outros.
os primeiros autocarros passam,
a manhã levanta devagar a cabeça,
os pássaros, não esqueçamos os pássaros,
pousam, de viagem.


antónio franco alexandre
poemas
assírio & alvim
1996
O objectivo é fugir. Atravessar as ruas
do tamanho de uma vida – para encontrar
do outro lado, o quê?, que mãos estendidas
até à parede em fogo do teu corpo? que
deus fugido dos pântanos de almas em
que ambos perdemos? Fugir, sim, até
onde não conseguimos mais do que estar
um com o outro, e os olhos se encontrem
– os meus com os teus olhos cuja cor
esqueci – e esse encontro, perfeito facto,
cresça de dentro do hemisfério que sobrou
de uma colheita estival (mas de rosas de
todo o ano, as mais efémeras).
 

nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997
Adiro ao grande segredo da pedra, ao
prumo inteiro da sua própria sombra.
Brando, revejo a solar rotunda dos teus ombros
e (repito) há pedra sobre pedra, inicialmente.
És tu, portanto. Tu que dizes. Tu
que sopras as coisas, tu que fumas.

A todos direi que já sabia, mas é sempre
a remodelar lembrança a dar-me sangue.
Só que nem sempre, é isto, de algo serve:
pois que veias, mais do que intenção?
e que largura imensa só nos olhos?
Fumo sem fogo, amor? Sinais?

pedro tamen
princípio de sol
circulo de leitores
1982
Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura


Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor



josé tolentino mendonça
de igual para igual
assírio &
VI

     Fecundo mês da oferta onde a invenção ilumina
     a harpa e a loucura desperta a pura espada
     em pleno sangue. Ó vasto,
     amargo e límpido mês interior onde a graça
     se toca do fogo e o corpo se torna o cândido
     e longo varão de música. Escada de seiva
     entre arbustos de estrelas
     e cubos de sal perpetuamente ardendo.
     — Por ti, mês feliz de confusão e génio,
     eu levanto minha húmida boca
     até ao ar e ao vinho, levanto
     minha obscura pedra por vias de tormento
     e instinto até
     ao barro vermelho do céu, ao espasmo
     violento e sagrado das palavras.

     Mês por onde subo fundamente agitado
     em meu coração de argila, em minhas veias
     de pequena infância espantada e grata.
     E subindo me incendeio e consumo.
     Mês das mãos purificadas.
     Delicado mês para uma corola
     de nuvem, um vivo transporte
     entre coxas e mamas.
     Em lama e areia se descobre
     o pensamento, se perde a memória, se possui
     uma estreita palavra virgem
     e extrema.

     Arde, mesa. Arde, instrumento de profunda
     música. Arde, vinho. Carne,
     ave, grande mar, grande estátua fria,
     grande sorriso desfeito na face da solidão.
     Mês de onde nascem os bichos ébrios e a voz
     das catedrais de resina e o flanco
     terrível e doce das montanhas
     e o amor irmão da morte e da alegria.
     Mês do poema, substância de Deus servida
     como ceia e primeira pedra no espaço
     da minha angústia,
     do meu encanto.
     Mês da aliança, tempo
     tremendo da inocência onde a lua desce
     suas raízes ferozes
     e a morte anuncia seus primeiros sinais
     de glória.

     — E eu dormia. O sangue atravessava a noite
     como cantando baixo.
     Tecedeiras deixavam mãos sobre a atenção, flores começavam
     no linho com o tremor comprido das veias.
     Mês, mês. Um beijo pensava-se em palavra, recolhia-se, renascia,
     vibrava na testa como o beijo da loucura.
     — Pela terra adiante aumentava o trigo insensato do canto,
     o perdão nascia das formas,
     e por todas as coisas corria o sopro alucinado
     e redentor
     de um primeiro minuto de entre as mãos e a obra.




     herberto helder
     poesia toda
     assírio & alvim
     1996
Só tu no mundo conheces o meu coração
o que sempre fui, antes de qualquer amor.

Cabe-me por isso dizer-te o que é horrível reconhecer:
no seio da tua graça germina a minha angústia.

És insubstituível. Está condenada
à solidão a vida que me deste.

E se não quero estar só! Tenho uma fome infinita
de amor, do amor dos corpos sem alma.
Porque a alma está em ti, és tu...



pier paolo pasolini
poesia in forma di rosa
1964
A cal
o amor
guardado para os mortos
dissolvente perfeito
da tua solidão
descarnada
em meu peito,
a cal,
o coração.



carlos de oliveira
terra de harmonia
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1998
esqueçamos então que a loucura
é hábil e que é pelo corpo que se escoa
o tempo

e que o corpo é um vento que
nos abandona e nos deixa sem nome
para o sangue, ou para as mãos

a nossa solidão é íngreme
como as grandes fragas negras
sob o voo dos pássaros – esse abismo
onde muito levemente os olhos se deixam
ainda chamar por outros olhos

e a eternidade desiste docemente
como se fosse um erro de deus



gil t. sousa
Eu no meu corpo como o tigre no seu bafo.
O mundo leva iguais a jaula e a casa.
Somos a vida que não é,
Fora não ser a morte.
Nem mesmo nada somos:
Estamos no que fomos
À espera do que importe.

Não se pode sair, e entrar já não:
Nada já deu entrada ao só nascido
Que é esse mesmo Nada:
Pelo que Nada não é nada,
Mas é nada
Em Deus que tudo gera.
Eu na minha alma como o bafo no seu tigre.




vitorino nemésio
o verbo e a morte
antologia poética
asa
2002
XXXVI

E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira.
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.

s.d.


alberto caeiro
o guardador de rebanhos
 O afastamento,
  sempre o mesmo milagre, um movimento
  de arranque para cima, e em seguida
  enganosamente natural.
  Foi esse milagre que nos enlouqueceu?           
  Primeiro uma ilusão,
  e finalmente o real.



pentti saaritsa
poemas
tradução de egito gonçalves 
"It only takes two facing mirrors to build a labyrinth."“Distorted realities have always been my cup of tea.” - Virginia Woolf“Be absurdly curious.” - Werner Herzog