quarta-feira, 26 de outubro de 2016

[ O que é digno e o que é indigno do homem... ]

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O que é digno e o que é indigno do homem pergunto enquanto caminho pelo corredor. Passo em frente duma janela e vejo a minha sombra projectada na parede. Então penso no logro mimético que representa a vassalidade à lei esse trânsito de acréscimo às reverberações de que se serve o crédito social para não abandonar as suas presas. Fim de citação.


ana hatherley
463 tisanas
quimera
2006

[ Levo comigo o meu abismo e ando ]

Levo comigo o meu abismo e ando. Reduzo a nada os caminhos que chegam ao fim, abro os caminhos longos como o ar, como a poeira, fazendo nascer inimigos dos meus passos, inimigos à minha medida. O abismo é o meu travesseiro, as ruínas são os meus ascensores.

Na verdade, sou a morte.

As orações fúnebres são as minhas fórmulas. Apago e espero quem me apagará. Nenhum desvio no meu fumo e nos meus sortilégios. Assim vivo na memória do ar.

Descubro uma cadência e um timbre para a nossa época.

(época que se esfarela como a areia e se solda como o metal época de nuvens chamadas rebanhos, de placas de zinco chamadas cérebros, época de submissão e de miragens, de marionetes e de espantalhos, época do instante glutão, época de uma queda sem fundo).

Não tenho artéria para esta época. Sou disperso e nada se parece comigo.

Crio uma ardência semelhante ao estertor do leviatã.

Vivo secretamente no seio de um sol por vir. Protejo-me com a infância da noite, abandonando a cabeça nos joelhos da manhã. Fujo e escrevo os livros do êxodo. Nenhuma promessa me espera.

Sou profeta e semeador de dúvidas.

Amasso a levedura da queda. Deixo o passado ao seu declínio e fixo a minha escolha sobre mim próprio. Distendo a época e enrolo-a. Chamo-a ó gigante monstruoso, ó monstro gigante. E rio e choro.

Sou argumento contra a época.

Apago os rastos e as manchas do meu ser interior. Lavo-o, limpo-o, deixo tudo em branco. Assim vivo no mais profundo de mim próprio.

As minhas veias alimentam-se de um derrame de sangue e não há lugar para mim entre os mortos. A vida é a minha vítima e não sei como morrer – o meu tempo está escondido, está sob os meus olhos. Ontem entrei no rito das ondas e a água era a minha chama.

Apresso-me porque a morte me persegue mobilizando os seus ventos entre os meus olhos. Rio com ela e choro no bater das minhas pestanas. Ah! Morte histriónica, morte carpideira!

Sei que estou no coração da morte, que me absorvo no túmulo, que bato contra as palavras. Mas vivo – outros que não eu sabem-no.

Ataco, desenraízo, passo, desafio. Aí onde passei caem as cataratas de um outro mundo. Aí onde passo está a morte, o beco sem saída.

Permanecerei assim – cercado por mim próprio.


adonis
arco-íris do instante
antologia poética
tradução de nuno júdice
dom quixote
2016

[ La oscuridad teológica del túnel ...]

" La oscuridad teológica del túnel
        armoniza con este conventual
        recogimiento en los andenes sucios.
        Tu ausencia me acaricia
        con ese tacto de visón del cálido
        aire del sótano sobre mi brazo.
        Como a hoguera de guarda nocturno
        me acerco a tu recuerdo.
        Pero ya es tarde :
        siniestros y brillantes, los raíles
        van entrando en el túnel del futuro "

             Joan Margarit.

domingo, 23 de outubro de 2016

Stunning Dancer Capture by Vadim Stein

The Ukrainien photographer Vadim Stein  gives a stunning photo series of dancer in motion. An approach both aesthetics and ethic for the author of black and white pictures, that reveal all the delicacy and elegance of that body in motion. Muscles are tights, materials are flitting, the movement is catched, as figures or sculptures
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“o céu é Deus por dentro”



*

Sopravam outros ventos.
                      A folharada
rangeu debaixo de meus pés ao acercar-me
da borda de suas tranças e seu sonho.
Como se ninguém tivesse,
o olhar distante e o sorriso,
“o céu é Deus por dentro” repetia.
Eu não soube seguir.
                     É Deus por dentro.

*
Vicente Sabido ( 1953-2013 )

*

tradução antónio carneiro

"O céu é Deus por dentro"

" Soplaban otros vientos.
                                           La hojarasca
       crujió bajo mis pies al acercarme
       al borde de sus trenzas y su sueño.
       Como si nadie hubiese,
       lejana la mirada y la sonrisa,
       el cielo es Dios por dentro  repetía.
       Yo no supe seguir.
                                    Es Dios por dentro "

           Vicente Sabido ( 1953-2013 )