domingo, 3 de abril de 2016

Impossível dizer até que ponto
a rapidez de tudo
atinge as paisagens na sua certeza
o significado dos instintos
desde muito cedo
os modos de travessia, os receios
imagens em que não pensamos

pela noite tua voz descreve
isso de nós que não tem defesa
um amor
largado às sombras, irreconhecível
até de perto

dizem que se tratou de
derivas, ingenuidades, ilusões
o teu amor é um nome qualquer
que parte

José Tolentino Mendonça
in Pequenas Paixões, Baldios, 1999



Se for nevar, ficaremos
como quem espera a neve
– no intervalo sonolento
aonde somente cresce
estar esse alguém perdendo,
não o ver, o que o sustente.
Recolheu-se já o vento.
E encostou recolher-se
ao sono. Que, desde dentro,
puxou o sono por esse
pensar cada vez mais lento,
do intervalo aonde cresce.



fernando echevarría 
geórgicas
afrontamento
1998

http://apod.nasa.gov/apod/image/1603/NGC6188_Pugh_2195.jpg


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The Fifth Dimension, Michael Najjar
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Mohammad Reza Domiri Ganji

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The approach, Azul Obscura
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A Caminhada

Feliz Suábia, minha mãe,
Também tu, à tua irmã Lombardia, mais brilhante,
Do outro lado, similar,
Banhada por cem ribeiros!
E árvores que bastem, de flores brancas e avermelhadas,
E repletas de folhagem mais escura, bravia, de um verde 
carregado,
E também os Alpes suíços vizinhos
Em ti projectam a sua sombra; pois tu habitas
Junto do fogo da casa, e ouves como no seu interior
De cálices de prata
Rumoreja a fonte, derramada 
De mãos puras, quando aflorado

Por cálidos raios
O gelo cristalino e deslocado
Pela luz levemente táctil
O cume nevado inunda a Terra
Com a água mais pura. Assim a fidelidade
Te é inata. Dificilmente abandona
Tal lugar aquele que habita junto das origens.
E as tuas filhas, as cidades,
Junto do lago sem fundo e cheio de fulgor ao longe,
Junto dos salgueiros do Nécar, junto do Reno,
São unânimes: em mais nenhum lugar
Melhor se poderia viver.
[…]

Friedrich Hölderlin (1770-1843)
Hinos Tardios
(tradução e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado)

sábado, 2 de abril de 2016

Adágios

1. A aveia até Abril está dormir.
2. Tarde acordou quem em Abril podou.
3. Vinho de Abril é gentil.
4. Dia de S. Francisco (2), semeia o teu milho mourisco.
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Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas que se agitam e quebram
Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.


William Butler Yeats
A Guitarra da Mouraria

Amo a tua guitarra, ó Mouraria,
em que um doer mourisco nos desola,
e as almas, sob a lua, acaricia,
como da Alfama a passional viola!…

Bem galantes solaus também carpia
Severa, essa Ninon de naifa e mola.
Mas há sangue em teus ais!… Tua magia
quantas vezes não traz a Cruz e a Estola!

Vai alta a lua. — Após a cavatina,
Almaviva, com zelos de Rosina,
dá seis golpes na amásia, com furor.

Almaviva é marujo e de melenas.
Prisões, guitarras, ais, céu de açucenas.
— Surge a Polícia… e prende, em fralda, o Amor.

Gomes Leal (1848-1921)
Mefistófeles em Lisboa — e outros humorismos poéticos
(edição de José Carlos Seabra Pereira)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

comprimento de onda de de Broglie


[Outra estação:]

Outra estação: 
mas não o ciclo 
em que o sol se amedronta ou reanima, 

os jardins se reduzem 
a um corpo transido, 
ou estuantes projectam seu domínio 
em laivos e oloroso alento,
 
os frutos se completam a acender 
o gosto e as mãos que os solicitam, 
ou se decompõem na lembrança 
da imagem que nos gasta ao esvair-se.

É o curso exausto pelo entorpecer 
do ímpeto do sangue,
 
com a voz despojada da harmonia 
que dá sua força aos nomes,
e lábios que ao buscarem rostos densos 
aspiram cinzas, sombras: 

cerram-se os olhos, até se consumar 
a hora lenta que os rende 
pela estrela da tarde.

José Bento (1932)
Alguns Motetos