domingo, 27 de março de 2016

or·to·é·pi·a 
substantivo feminino
1. Arte de pronunciar correctamentepronúncia correcta. = PROSÓDIA
2. Acentuação das palavras. = PROSÓDIA
3. Estudo da pronúncia correcta das palavras.
Palavras relacionadas:  .


"ortoépia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/orto%C3%A9pia [consultado em 27-03-2016].

AIRTime from Christian Grewe on Vimeo.

Vivaldi - Gloria

[Como uma voz de fonte que cessasse]

Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), p’ra além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce

Parou… Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce…

A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
P’ra o mistério, silêncio a que a hora assiste…

E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida…
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo…

Fernando Pessoa (1888-1935)
Poesia 1902-1917
(edição de Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine)

sábado, 26 de março de 2016

Lisboa Rua do Sol ao Rato
chuva

correndo na direcção do Largo
quase derrubei um velho de sobretudo
que acenava de bengala
gesto ancho
para a graça de um prédio devoluto

admirei a pintura desse
obstáculo posto entre a passagem dos elefantes
Ganecha montado num
Roedor

Mário Cesariny era Surya sob influência
de um Ganges atmosférico
ainda raspei no acontecimento ainda
olhei para trás

e quando de novo me virei
já havia
entrado num veículo desaparecido num aceno
de múltiplos braços

o Sol terá despontado por cima
o rato iluminou

mudou para tarô num anagrama fácil

o bardo
finou subiu tornou enfim ourives
como quisera o pai
porém de um metal distinto agora
corpo invisível

óleo sobre cartão

queremos vê-lo hoje entre uma horda
de anjos marujos
que jamais o deixarão ir sozinho para
casa

amando-o à varanda do tempo como
na praia nortenha da infância
enxame de pirilampos dispersos sobre a água
de um poço escuro

como se de novo a irmã pousasse
sobre a mesa o bule tornasse à cozinha
raspando as pantufas

e de roupão voltasse Mário
da janela
vertesse os dedos extraordinariamente
sobre o marfim pálido

e tocasse



miguel-manso
da cegueira dos pintores
persianas
tinta da china
2015

"Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento, 
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar. "
Fernando Pessoa
José Craveirinha designou por Ao gosto de Maria:

Dizem que o Zé Craveirinha
é um velho sempre na moda
que sabe vestir
e calçar bem.

Mas o Zé diz que tudo o que ele usa
não é ele mas Maria
que o faz escolher
ao gosto dela.
[Quando vier a primavera,]

Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Fernando Pessoa (1888-1935)
Ficções do Interlúdio
(edição de Fernando Cabral Martins)

sexta-feira, 25 de março de 2016

Escrevi muitas cartas. Algumas parecidas
à bela suavidade das lágrimas, amplas
como a noite que nos arranca o amor e o adormece.
Outras tiveram a eternidade da paixão.
Umas poucas páginas serviram para soltar
o próprio consolo, escondê-lo num envelope branco
e deixá-lo voar, junto com o passado, esquecê-lo
por fim, pois já ficou escrito: ficou o mundo triste
pelo poderoso infinito das palavras.

Os sentimentos vão-se desfazendo atrás de cada
letra, e tem-se saudade do que a ausência apagou
já da alma séria, murcha pala paciência,
o profundo vazio, a distância, o amor
impossível (o amor tão grande que não conheceu
outra noite além da sobra que sepulta a terra).

O resto de cartas nasceu quando chovia
dentro do outro mundo: no centro do coração
que sonha converter-se em pedra. E ser memória.




toni montesinos gilbert
poesia espanhola, anos 90
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2000
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© Andy Yeung

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© Andy Yeung

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© Andy Yeung

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© Andy Yeung

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© Andy Yeung

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© Andy Yeung

Vanishing point, Andy Yeung
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Solidão

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda. 
E do céu tomba sobre a cidade.
Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios...
Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira
"Senti que o tempo é apenas um fio. Nesse fio vão sendo enfiadas todas as experiências de beleza e de amor por que passamos. Aquilo que a memória amou fica eterno. Um pôr do sol, uma carta que recebemos de um amigo, os campos de capim-gordura brilhando ao sol nascente, o cheiro do jasmim, um único olhar de uma pessoa amada, a sopa borbulhante sobre o fogão de lenha, as árvores do outono, o banho da cachoeira, mãos que seguram, o abraço do filho: houve muitos momentos de tanta beleza em minha vida que eu disse: ‘Valeu a pena eu haver vivido toda a minha vida só para poder ter vivido esse momento. Há momentos efêmeros que justificam toda uma vida’."
- Rubem Alves, em “Do universo à jabuticaba”. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010, p. 144.


AINDA QUE A TERRA TODA
Ainda que a terra toda
eu tivesse conquistado
só existe para mim uma cidade.
Uma cidade onde para mim só existe
uma casa
e, nessa casa, apenas um quarto;
e nesse quarto, uma cama.
Uma cama onde dorme uma mulher —
a jóia que mais cintila
em todo o meu reino.

Birdy - Wings (Acoustic)





Sunlight comes creeping in
Illuminates our skin
We watch the day go by
Stories of all we did
It made me think of you
It made me think of you

Under a trillion stars
We danced on top of cars
Took pictures of the stage
So far from where we are
They made me think of you
They made me think of you

Oh lights go down
In the moment we're lost and found
I just wanna be by your side
If these wings could fly
Oh damn these walls
For the rest of our lives

I'm in a foreign state
My thoughts they slip away
My words are leaving me
They caught an aeroplane
Because I thought of you
Just from the thought of you

Oh lights go down
In the moment we're lost and found
I just wanna be by your side
If these wings could fly
Oh damn these walls
In the moment we're ten feet tall
And how you told me after it all
We'd remember tonight
For the rest of our lives

If these wings could fly

Oh lights go down
In the moment we're lost and found
I just wanna be by your side
If these wings could fly
Oh damn these walls
In the moment we're ten feet tall
And how you told me after it all
We'd remember tonight
For the rest of our lives

"indelével"

in·de·lé·vel (latim indelebilis-e)adjectivoQue não se pode apagar ou fazer desaparecer.
"indelével", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/indel%C3%A9vel [consultado em 25-03-2016].
Craque do Barcelona, do Ajax e da seleção holandesa, Johan Cruyff era ainda conhecido como um "filósofo do futebol", pela visão única que tinha do desporto-rei.
Sempre pronto para lançar um comentário mais mordaz, Cruyff deixou-nos inúmeras frases que nos fazem olhar de outra forma para o futebol.

O SAPO Desporto escolheu dez frases do antigo craque, que se chegou a apresentar como alguém "provavelmente imortal":

"Só há uma bola, portanto tens de a ter".

"Jogar futebol é muito fácil, mas jogar um futebol fácil é a coisa mais difícil que há".

"Não sou religioso. Em Espanha, todos os 22 jogadores fazem o sinal da cruz antes de entrarem em campo. Se funcionasse, daria sempre empate".

"Qualidade sem resultados é inútil. Resultados sem qualidade são aborrecidos".

"Porque é que não seria possível vencer um clube mais rico? Nunca vi um saco de dinheiro a marcar um golo".

"Todas as desvantagens têm uma vantagem".

"A velocidade é muitas vezes confundida com antecipação. Quando começo a correr antes dos outros, pareço mais rápido".


«Tem muito de seu e de sobejoQuem sabe pensar com o seu coração».

Benedeit (séc. XII)A Viagem de São Brandão
[…]
Para celebrar a Sua festa.
Tirai a nave por uma corda.
Tomai uma ovelha 
E preparai-a para o dia pascal.
E queira Deus que seja assim
Pois nada mais aqui achamos.»
Eles fizeram o que ele mandou
E por três dias ali se atardaram.
Chegou no sábado um mensageiro
Que os saudou da parte de Deus.
De brancos cabelos e olhar juvenil
Sem padecer ali vivia há muito tempo.
Trouxe-lhes pão do seu país
Um pão mui branco de fina farinha
E prometeu a tudo prover
E não consentir em qualquer falta.
O Abade inquiriu sobre o lugar
E por discrição foi breve a resposta.
Apenas disse: «Tem muito de seu e de sobejo
Quem sabe pensar com o seu coração».

Benedeit (séc. XII)
A Viagem de São Brandão
(tradução e prefácio de José Domingos Morais, desenhos de Ilda David’)