sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

“A silent velvet footstep filled me, unwelcome yet so needed. You finally found my hidden shore with grains of time and ocean of the most secret secrets, violet and red; left a trail of deep blue footsteps on my glowing beach of soul, and no matter how many times tides wash the golden sand anew, your prints can never be erased.
Each one a shining star in my quiet Universe…”  
  ―    Oksana Rus
“There was once a woman who had one hundred faces. She showed one face to each person, and so it took one hundred men to write her biography.”
Anaïs Nin*
“Qui s'oublie dans l'amour - Se souvient du futur”  

 ―    Charles de Leusse
breathe
stay away from sharp edges
obsess over clouds
talk to animals
ignore ghosts
silence negativity 
in a world
full of
temporary things

you are
a perpetual 
feeling.”  
  ―    Sanober Khan
“One doesn’t want appreciation… one wants response. To tell you the truth, I don’t know what I want of you, or of anybody for that matter. I want more than I get, that’s all I know. I want you to step out of your skin - I want everybody to strip down, not just to the flesh, but the soul.”  
  ―    Henry Miller
“I swear to you there are divine things more beautiful than words can tell.”
- Walt Whitman 
“The fingers on the windows leave traces on them; the fingers on the body leave invisible traces.”  
  ―    Charles de Leusse
..”Close your eyes to corral a virtue,
Is this fooling anyone else?
Never worked so long and hard,
To cement a failure,
We can blow on our thumbs and posture,
But the lonely are such delicate things,
The wind from a wasp could blow them,
Into the sea,
With stones on their feet,
Lost to the light and the loving we need,”
- The Shins - “A Comet Appears“
“All great events hang by a single thread..”
- Napoléon Bonaparte
lisboa
por tràs dos muros da cidade
no seu coração profundo de alicerces
de argilas e de sísmicos arroios - cresce uma voz
que sobe e fende a brandura das casas

da escrita dos enumeráveis povos quase
nada resta - deitas-te exausto na lâmina da lua
sem saberes que o tejo te corrói e te suprime
de todas as idades da europa


mais além - para os lados do corpo - permanece
a tosse dos cacilheiros os olhos revirados
dos mendigos - o tecto onde um navio
nos separa de um vácuo alimentado a soro


plátanos brancos recortam-se luminescentes no olhar
de quem nos olha contra um céu desesperado - jardim
de iris açucenas palmeiras cobertas de rocio e
a ponte que nos leva aos campos do sul - lisboa



lugar derradeiro do riso
que já não te pode salvar do cemitério dos prazeres



e morres
carregado de tristezas e de mistérios - morres
algures
sentado numa praceta de bairro - o olhar fixo
no inferno marítimo das aves

 
al berto
fico indiferente a vê-los gostar de poemas meus da juventude,
poemas tão inconscientes de si quando se coloca a mão
numa fruta, num livro encadernado,
e estranho, que passem rápido sobre a ferida ainda aberta,
ou não sintam a rispidez com que se fecha o dia
ao voltar a página
sob a noite afogando casas, pessoas, todos os livros do mundo,
e já declina a beleza completamente despida
da jovem ateniense que abriu a porta e traz a luz ao quarto inteiro
                                                                                             de uma só vez,
mas deixa que se suspeite a treva infinda de onde chega,
ávida fêmea de que equívoca temperatura,
de perguntas como: que idade tem a terra?
em que data de que sítio é a primavera?
ou: este arrepio nas unhas anuncia que morre de que coisas?
(alguém algures assobia uma canção em voga)
¿e que terror é este saber que há tanta vida
neste dia em que decerto, entre ruído e silêncio cada vez mais fundo,
alguém sente que a ferida lateja,
e há numa página do livro
 – aguda, obscura, ofuscante –
uma dedada de sangue?


herberto helder
relâmpago
revista de poesia 36/37
fundação luís miguel nava
2015
Tenho fome de um nome
e procuro-o para além dos idiomas
como garimpeiro de vozes
esgravatando um chão de silêncios.

Ecoa em mim
um búzio sem mar,
um peixe agoniza
no estremecer da página nua.

Hoje fui beijado por serpente.
E me espelhei
água sobre a lua.

Hoje escrevi mel
sobre a picada da abelha
isso a que outros chamam poesia.



mia couto
tradutor de chuvas
caminho
2013
Olha, deixa-me dizer-te isto antes que me esqueça: pego na fotografia, aquela a que nunca chamámos nossa porque éramos só nós sem espólio. Seguro-a como se fosse perigoso.
É um gesto inútil, a distância apenas contraria a memória.

Reparo devagar no inacreditável alongamento dos corpos quase impossíveis, vegetais. Vejo a assimetria de, a textura que, a sombra sobre, o intervalo entre. E como parecem banalidades em moldes.

E é um risco, sabes, porque subitamente lembro-me do corte, de um pequeno golpe já curado, terá sido faca, falha, acidente, procura de dor. Não sei. E é o que não sei que se ateia, é a maldição dos indícios. Um só dedo, por exemplo, um só dedo traçou palavras, alegrou-se, apontou na vertical, pousou sobre a febre, deu começos a solo. E o resto?

Não permito a fala da fotografia, a imprecisão com que descreve a junção, o erro no que diz do clarão que trouxe o escuro que nos abrigou da morte. E da grande luz que deu.


manuel margarido
voo rasante
antologia de poesia contemporânea
mariposa azual
" Me pierdo en tus ojos, no me eches… , tienes en la mirada como un viento que arrastra.
     Existe peligro en esa mirada rubia como el trigo. El viento de sus ojos me arrastra hacia él, y aunque mi cuerpo inmóvil resiste, mi mano se da la vuelta para encontrar su palma. En el cerco de luz la vida de mi mano se pierde en la suya y cierro los ojos. Me levanto del suelo, y con gestos conocidos resucita el encantamiento de mis sentidos, despertando a la alegría los nervios y las venas. No me había equivocado, la Cierta me vigila a distancia, pero sólo para ponerme a prueba, He de aceptar el peligro, si ese peligro sólo tiene el poder de devolver la vida a mis sentidos, pero con calma, sin temblores infantiles… "

                 Goliarda Sapienza ( 1924-1996 )
" Se te iba haciendo el cuello de sal y la sonrisa
       de piedra, y eran páramos los campos
       y la ciudad azufre, y habías vuelto el rostro
       fuera del orden propio natural ( o invitada
       por este mismo orden ) , olvidando la antigua
       dulzura consabida, y supiste de pronto
       que era aquel gesto tuyo quien prendía las llamas "

                  María Victoria Atencia.
Profano, prático, público, político, presto, profundo, precário,
improvável poema,
contudo
nem eu estava à espera dos bárbaros que viriam devastar
a terra
porque éramos inocentes,
nós que só queríamos o silêncio,
e a voz diria que se fosse preciso traziam Deus,
e é sim possível que trouxessem qualquer espectáculo com
cristos nus e saltimbancos de feira,
e paus vermelhos,
e paus amarelos,
paus virgens com linho e algodão pintado,
paus compridos com petúnias como borboletas:
e eu achava inadmissível,
e tinha a meio da minha própria linguagem a dor sozinha
em que súbito se repara,
e de que o poema se faz carregado e quente,
e não explicava nada,
e lá vinham os bárbaros como no episódio de Alexandria,
mais uma vez depois de Cavafis,
incendiada pelos soldados de César e do califa Omar,
por franceses e ingleses e todos os outros bárbaros,
por todos os incapazes da medida intrínseca,
a densa meditação que conduz ao poema puro,
e nunca, nunca mais a paixão,
e então o centro do mesmo mundo era o centro de Alexandria,
olhos fechados víamos através das pálpebras a nossa vida ardente
                               e muda e lenta,
e a carne desde o imo desfazia-se num soluço,
magoada, humana,
alexandrina,
e o mundo era pequeno,
mais pequeno com certeza que um poema de um verso único,
universo:
oh nunca mais quero viver no mundo!
Herberto Helder, in Servidões, 2013
… Como nos cães,
tocados por seu dono,
vagueia todo o amigo da terra,
assim quisera eu minha palavra:
simples,
tímida nas pupilas,
com sílabas errantes de menino.

     Improvisar o mundo,
e todo o diáfano do mundo,
com a data encontrada no orvalho
e com o sopro tépido da mão…

     Pois o que vale é o real
escrito com a exalação do real,
e com o sedimento aéreo
do coração que pulsa chamado por seu dono,
leve,
muito levemente
oh, poema.

leopoldo maria panero
a rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
tradução josé bento 
assírio & alvim

2001
" No me llames después,
        porque ahora te daría
        mi vida, nombre y sueños "

          Francisco Gálvez.
" No se mata uno por el amor de una mujer. Uno se mata porque un amor, cualquier amor,  nos revela nuestra desnudez, nuestra miseria, nuestro desamparo, la nada "

                Cesare Pavese ( 1908-1950 )