domingo, 26 de março de 2017

Hesito no caminho.
Ninguém segue este rumo…
É noutra direcção
Que o vento leva o fumo
Das paixões…
Chegar, sei que não chego,
De nenhuma maneira;
Mas queria ao menos ir no lírico sossego
De quem não se enganou na estrada verdadeira.

E não vou.
Cada vez mais sozinho
Na solidão,
Duvido da certeza dos meus passos.
Vejo a sede ancestral da multidão
Voltar costas às fontes que pressinto,
E fico na mortal indecisão
De afirmar ou negar o cego instinto
Que me serve de guia e de bordão.


miguel torga
câmara ardente
1962

quinta-feira, 23 de março de 2017

sobre livros de auto-ajuda:
"cheguei à conclusão de que são provérbios populares, mas ditos por outras palavras e com muita palha à mistura."

José Luis Sampedro (Barcelona, 1917 - 2013, Madrid)

Triunfo


Assim quero o meu prémio e a vitória:
Que uma tarde, quando me fores ler,
precises de procurar por entre as folhas
uma rosa esquecida que já não existe.
E por não a encontrares, silenciosamente,
te dirijas angustiada para a cidade
e pela vez primeira consigas ver
que o aço e os homens também podem ser cinza.
Que a rua é um rio de palavras secas.
Que sempre que olhamos o mundo de frente
assistimos ao fim de alguma coisa.
E, apesar de tudo,
muito lá no fundo e inexplicavelmente,
é belo conseguir ser homem até que a morte chegue.
1. En tu casa no tienes sardina, y en la ajena pides gallina.
 (Na tua casa não tens sardinha, mas na alheia pedes galinha.)

2. Holgad, gallinas, que el gallo está en vendimias.
 (Folgai, galinhas, que o galo anda em vindimas.)
é, no mínimo, curioso que o jogo infantil da cabra-cega, em Espanha se chame Gallina Ciega e, na Alemanha, seja conhecido por: Blinde Kuh (Vaca cega). Mudam os animais patronos, mas o jogo é o mesmo.
Rudimentar, mas sábia e talvez útil, esta informação agrícola colhida em Aquilino Ribeiro (1885-1963), no seu Cinco Réis de Gente (1948), assim:

"- Como se obtêm essas batatas, ó abade? Por intercessão dos santos... ou que milagre é este?
- Não é milagre, meu ilustre amigo. Qualquer pecador da serra tem esta regalia.
- Pois olhe, eu na quinta, apesar de todos os adubos, não consigo nada que se pareça.
- Não consegue, não. São privativas deste solo pobrinho. O segredo está nos três quindins: terra granita, água granita, e caganita, com perdão de Vossa Excelência."
ASPECTOS DE UMA DEFINIÇÃO


[...]

- Destrói os teus escritos, já que não tens fé neles.
- São provas contra mim.
- E se todos os teus leitores te absolverem?
- Serei eu a denunciá-los, por serem meus cúmplices.

[...]

Se tivesse coragem, só escreveria poemas anónimos.

*

Escolher uma filosofia? Um taoismo da raiva.

[...]

A escreve um poema. B continua-o num desenho. Baseando-se nesse desenho, C compõe uma música. Graças a ela, D consegue aperfeiçoar a percussão de um motor. Este último permite a E descobrir uma nova cura, que inspira F na sua teoria sobre a evolução do pensamento humano. G aplica a teoria de F em poesia. G e A são a mesma pessoa. Ou então: um poema só é válido se a sua última palavra for também a primeira palavra de dez poemas a escrever, a primeira pincelada de cem quadros a pintar, a primeira nota de mil sinfonias a compor. A poesia é indivisível e supera o poema, o seu tapa-buracos.

*

Tudo é desespero na poesia: o achado ainda não é o poema, a perfeição já não é o poema. 

[...]

Escreve como se as tuas obras fossem já póstumas, e a tua língua uma língua morta. Mas: traduz todos os dias o teu poema da véspera na tua língua de amanhã. 

[...]


Alain Bosquet, Poèmes, un (1945-1967),
Paris: Gallimard, 1985

[Trad. ID]

quarta-feira, 22 de março de 2017

terça-feira, 21 de março de 2017

" Dejas las cosas sobre la cama,
        déjalas sin darle importancia.
        Deja tus recuerdos.
        Deja tus sueños
        tu tristeza con ellos.
        Frío es el calor que nos daña
        si piensas que la vida
        tiene sus lamentos
        como se olvida lo que duele.
        Deja contigo esos fríos
        en la cima del fuego.
        Coloca cosas inútiles
        que tan importante eran.
        Déjalo todo como si nada "

               Kepa Murua.
"The opposite of Loneliness is not Togetherness, It’s Intimacy"
“Our journey is entirely imaginary. That is its strength.” -  Louis Ferdinand Celine 
“You meet your destiny on the road you take to avoid it.” - Carl Jung
ROTEIRO DO SILÊNCIO



Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido
Quero que saibam:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio.

Hilda Hilst
VII

     A manhã começa a bater no meu poema.
     As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
     líricas.
     Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
     Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
     o rodopio das rosáceas do meu
     poema batido pela revelação das coisas.
     Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
     pelo sangue.
     Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
     rapidamente transfigurada.
     Batem nas portas das palavras,
     sobem as escadas desta intimidade.
     É como uma casa, é como os pés e a as mãos
     das pessoas invasoras e quentes.

     Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
     deitado de costas, com o nariz que aspira,
     a boca que emudece,
     o sexo negro no seu quieto pensamento.
     Batem, sobem, abrem, fecham,
     gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
     do poema.

     Uma inspiração fende lírios na minha testa,
     fende-os ao meio
     como os raios fendem as direitas taças de pedra.
     Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
     Uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
     Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
     levitante,
     as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.

     É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
     do poema. É Deus que rola e a morte
     e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
     à beira
     do povo que até mim separa os espinhos das formas
     e traz sua pureza aguda e legítima.
     — Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
     pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
     de música fria.

     — Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.

     O poema dói-me, faz-me.
     O povo traz coisas para a sua casa
     do meu poema.
     Eu acordo e grito, bato com os martelos
     dos dias da minha morte
     a matéria secreta de que é feito o poema.

     — A manhã começa a colocar o poema na parte
     mais límpida da vida. E o povo canta-o
     enquanto crescem os campos levantados
     ao cume das seivas.
     A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
     do mundo.



     herberto helder
     poesia toda
     assírio & alvim
     1996

segunda-feira, 13 de março de 2017

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errónea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

1931


fernando pessoa
poesias inéditas (1930-1935)
ática
1955

domingo, 12 de março de 2017

CLAUDICAR Y MURIENDO



A rastras se te acerca                   
y te lame las piernas,                   
perro fiel, con sus ojos de agua,                             
y te tiende las manos,                 
y te pide socorro.                          

Y tú le miras                      
como un sol que se cae                              
sin poder detenerse,                   
y le tiñes de rojo,                           
y el pecho le traspasas                
con tus hojas de cobre.                              

A rastras se te acerca,                  
asomado a una lágrima,                              
y una luz criminal                           
le muerde en el silencio.                            

Malherido,                        
dando vueltas,                
aullando se estremece.                              

Tú, miserable, le acaricias,                         
mientras tu corazón está muy lejos.                     


Ángeles Mora




Chega-se de rastos
a lamber-te as pernas,
cachorro fiel, com seus olhos de água,
a estender-te as mãos,
a pedir-te socorro.

E tu olhas para ele
como para um sol a cair
sem poder segurar-se,
tinge-lo de vermelho
e cravas-lhe o peito
com tuas folhas de cobre.

Chega-se de rastos,
lágrima no olho,
uma luz culpada
a  mordê-lo em silêncio.

Malferido,
às voltas e voltas,
uivando a tremer.

Tu, mísero, fazes-lhe festas,
com o coração lá muito longe.


(Trad. A.M.)
(47)

não há nada tão triste
como a primeira coisa
que escondemos numa gaveta


ou a última pessoa
que enterrámos num papel



GIL T. SOUSA
Falso Lugar
(2004)
Despir a floresta,
conduzir as nuvens
até à próxima nascente.


E alegria em terra lavrada,
Confortá-la na mão
Por suas invisíveis sementes.


antónio osório
o lugar do amor
a boca junta
gota de água
1981
III
qualquer voz alou-se
muito desejada.
Branco fosse o espaço
e ela ardente cor.
Quis o espaço a voz
a voz veio e ampliou-o.
Mas se não houvesse
propriamente voz…
Vamos nós supô-los:
dois sem seus sentidos.
Desejemos mesmo
dois incompreensíveis.
Bom nos ecoarmos
na voz recebida.
E o espaço esvaziado
povoá-lo de vez.
Amá-los tão sem
amada presença,
só com o coração
sem correspondência,
só com a vocação
do verso feliz.
IV
Numas noites chegamos à janela,
e as mandíbulas do ar tanto nos roem,
que os leitos rotos logo deliqüescem
com os nossos corpos complacentemente.
Certos dias olhamos o sol claro;
e a boca hiante das cores nos devora
carnes e sangues, poeiras de costelas,
que ficamos inúteis, sem matéria.
Essas bocas nos sugam noite e dia,
vigiando dia e noite nossas vidas
um minuto no espaço, menos que ai
de chumbo soluçado nos silêncios,
ou cal de fome longa, revelada,
na noite igual ao dia, de tão gêmeos.
…………….
Jorge de Lima

VII
Alegria achareis neste poema
como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se
conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doente,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;
ou como sente os ombros de seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.
São alegrias rápidas. Lugares,
reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão.
VIII
Se falta alguém nesses versos
pele vento interminável,
pelas arenas de estátuas,
sucedam-lhe os cegos olhos
sacudidos pelos medos,
mãos de chuvas lhe inteiricem
o corpo com algas remissas
e com matérias tranqüilas
tão soturna como os poços,
exasperados invernos,
ombros de escova comida,
as asas secas caídas,
ante seus netos calados;
e incorporem-se a esse alvitre
esse sabor de cortiça,
essas esponjas morridas,
essas marés estanhadas,
essas escunas de espáduas
estritamente fechadas
como casas de abandono,
restringem-se os conciliábulos,
certos sigilos de pez,
certas coisas enlutadas,
refúgios, dramas ocultos,
pois as rosas são de trapos
e os fios menos que teias,
menos que finos agora,
e as camisas sem os pêlos
enterrados nas ilhargas,
vestem enganos e punhos
e crimes em vez de adegas,
mas tudo em vão, mesmo as plumas,
mesmo os ausentes e as vozes
aderidas a fragmentos
aí moram degredadas,
listrando as grades, de faces
que não conhecem espelhos
…….
Jorge de Lima