quarta-feira, 10 de maio de 2017

“When written in Chinese, the word “crisis” is composed of two characters. One represents danger and the other represents opportunity.” (John F. Kennedy)
Há grandes manchas de sangue no mundo
para onde vai todo esse sangue vertido
será a terra que o bebe e com ele se embebeda
estranha bebedeira então
tão ponderada… tão monótona…
Não a terra não se embriaga
a terra não gira ao contrário
vai arrastando a sua carripana as quatro estações
a chuva… a neve…
o granizo… o bom tempo…
nunca se embebeda
só muito de longe a longe ela se permite
um mísero vulcão
A terra gira
gira com as suas árvores… os seus jardins… as suas casas…
gira com as suas poças de sangue
e todas as coisas vivas giram com ela e sangram…
Mas a terra
pouco se importa
gira e todas as coisas vivas desatam a gritar
ela pouco se importa
vai girando
sem parar
e o sangue não pára de correr…
Para onde vai todo esse sangue vertido
o sangue dos crimes… o sangue das guerras…
o sangue da miséria…
e o sangue dos homens torturados nas prisões…
o sangue das crianças calmamente torturadas pelo pai e pela
     mãe…
E o sangue dos homens que sangram da cabeça
nas celas de isolamento…
 e o sangue do trolha
quando escorrega e cai do telhado
E o sangue que brota e que corre aos borbotões
com o recém-nascido… com o filho novo…
a mãe a gritar… a criança a chorar…
o sangue corre… a terra gira
a terra não pára de girar
o sangue não pára de correr
Para onde vai todo esse sangue vertido
o sangue dos espancados… dos humilhados…
dos suicidados… dos fuzilados… dos condenados…
e o sangue daqueles que morrem assim… por acidente
Na rua passa um vivo
com todo o seu sangue lá dentro
de repente ei-lo morto
e todo o seu sangue está cá fora
e os outros vivos fazem desaparecer o sangue
levam o corpo
mas o sangue é teimoso
e lá onde estava o morto
em breve já negro
vê-se ainda um pouco de sangue…
sangue coagulado
ferrete da vida ferrete dos corpos
sangue coalhado como leite
como o leite azeda
quando gira como a terra
como a terra que gira
com o seu leite… com as suas vacas…
com os seus vivos… com os seus mortos
a terra que gira com as suas árvores… os seus vivos… as suas
     casas…
a terra que gira com os casamentos…
os enterros…
os clarins…
os regimentos… a terra que não pára de girar
com os seus grandes rios de sangue.

1936


jacques prévert
palavras
trad. manuela torres
sextante editora
2007
É algo mais que o dia o que morre esta tarde?
O vento,
                          – que leva ele?
que aromas arrebata?
Desatadas de súbito as folhas das árvores
cegas vão pelo céu.
Pássaros altos atravessam, adiantam-se
a luz que os guia.
                               Sombria claridade
será já em outro sítio
 – só por um instante –
madrugada.

     Com bandeiras de fumo alguém me avisa:

      – Olha bem tudo isto:
isto que passa
não voltará jamais
e é como se nunca tivesse sido

     efémera matéria de tua vida.



angél gonzález
rosa do mundo
2001 poemas para o futuro
trad. josé bento
assírio & alvim
2001
Com o mor as rosas são mais belas
e dura o seu perfume na memória,
o nardo é sempre branco e a sua brancura
jamais receia os frios do inverno.
A um sonho bem remoto fui buscar-te
porque soube de ti entre os espinhos,
e segui as tuas pegadas passo a passo
até entrar em tua casa e encontrar-te.
Não me negues teus lhos, porque neles
vivo livre de mim. Que o teu sorriso
não se torne tristeza nem se manche
do teu amparo a límpida clareza.
Conheci tantos bosques e desertos,
subi a tantos cumes e deixei
que a vistas e perdesse pelos vales
para achar um lugar que te ofereça.
Hoje estás perto e sei da tua beleza
Sei que é bonita a rosa e a sua fragrância
Contigo não se extingue, e que os nardos
com o amor não morrem em Novembro.




jacobo cortines
nardos de novembro
tradução de josé colaço barreiros
canal revista de literatura nr.2
maio de 1998
palha de abrantes

ainda que o tempo não dê para perceber a beleza
de todas as coisas, devo pé ante pé (para não
acordar o ódio), abeirar-me do desconhecido,
daquele outro lado que ignoro. contudo, era bom que

alguém me justificasse o desconhecimento que tenho
das coisas: haverá alguma beleza em descobrir que
tudo é relevante ou que nada presta, se aquilo a que
estou condenado é ver o outro lado a partir do meu?




joão esteves
A miséria da minha condição não é estorvada por estas palavras conjugadas, com que formo, pouco a pouco, o meu livro casual e meditado. Sobrevivo nulo no fundo de toda a expressão, como um pó indissolúvel no fundo do copo de onde se bebeu só água. Escrevo a minha literatura como escrevo os meus lançamentos — com cuidado e indiferença. Ante o vasto céu estrelado e o enigma de muitas almas, a noite do abismo incógnito e o choro de nada se compreender — ante tudo isto ó que escrevo no caixa auxiliar e o que escrevo neste papel da alma são coisas igualmente restritas à Rua dos Douradores, muito pouco aos grandes espaços milionários do universo.

Tudo isto é sonho e fantasmagoria, e pouco vale que o sonho seja lançamentos como prosa de bom porte. Que serve sonhar com princesas mais que sonhar com a porta da entrada do escritório? Tudo o que sabemos é uma impressão nossa, e tudo o que somos e uma impressão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos constituímos nossos próprios espectadores activos, nossos deuses por licença da Câmara.
s.d.


fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.II
ática
1982

Sou o espectador o actor e o autor
Sou a mulher e o marido e o filho
E o primeiro amor e o derradeiro amor
E o furtivo transeunte e o amor confundido


E de novo a mulher seu leito e seu vestido
E seus braços partilhados e o trabalho do homem
E seu prazer em flecha e a fêmea ondulação
Simples e dupla a carne nunca se exila

Pois onde começa um corpo ganho eu forma e
                                                                                      [consciência
E mesmo quando na morte um corpo se desfaz
Eu repouso em seu cadinho desposo o seu
                                                                        [tormento
Sua infâmia me honra o coração e a vida .




paul éluard
algumas das palavras
trad. antónio ramos rosa e luiza neto jorge
publicações dom quixote
1977


UGC 1810: Wildly Interacting Galaxy from Hubble 
 Image Credit: NASA, ESA, Hubble, HLA; Processing & Copyright: Domingo Pestana
Explanation: What's happening to this spiral galaxy? Although details remain uncertain, it surely has to do with an ongoing battle with its smaller galactic neighbor. The featured galaxy is labelled UGC 1810 by itself, but together with its collisional partner is known as Arp 273. The overall shape of the UGC 1810 -- in particular its blue outer ring -- is likely a result of wild and violent gravitational interactions. This ring's blue color is caused by massive stars that are blue hot and have formed only in the past few million years. The inner galaxy appears older, redder, and threaded with cool filamentary dust. A few bright stars appear well in the foreground, unrelated to UGC 1810, while several galaxies are visible well in the background. Arp 273 lies about 300 million light years away toward the constellation of Andromeda. Quite likely, UGC 1810 will devour its galactic sidekick over the next billion years and settle into a classic spiral form.
As dores do mundo não as sofre o mundo.
Embora os matem, torturem, entristeçam,
embora lhes violem quem mais querido,
embora percam tudo o que nem tinham,
os homens sofrem porque sofrer dói menos.

Mas no centro do universo,
do coração que a humanidade ainda não tem,
do âmago das dores que ainda não sente,
da terra a passar toda pela carne,
da carne apenas vida sobre a terra,
uns poucos homens não sofrem nem contemplam:
ardem nas chamas que aos outros faltam.



jorge de sena
perseguição (1942)
trinta anos de poesia
editorial inova
1972

terça-feira, 9 de maio de 2017

Big Dipper Above and Below Chilean Volcanoes


Big Dipper Above and Below Chilean Volcanoes 
 Image Credit & Copyright: Yuri Beletsky (Carnegie Las Campanas Observatory, TWAN)
Explanation: Do you see it? This common question frequently precedes the rediscovery of one of the most commonly recognized configurations of stars on the northern sky: the Big Dipper. This grouping of stars is one of the few things that has likely been seen, and will be seen, by every generation. The Big Dipper is not by itself a constellation. Although part of the constellation of the Great Bear (Ursa Major), the Big Dipper is an asterism that has been known by different names to different societies. Five of the Big Dipper stars are actually near each other in space and were likely formed at nearly the same time. Connecting two stars in the far part of the Big Dipper will lead one to Polaris, the North Star, which is part of the Little Dipper. Relative stellar motions will cause the Big Dipper to slowly change itsconfiguration over the next 100,000 years. Pictured in late April, the Big Dipper was actually imaged twice -- above and below distant Chilean volcanoes, the later reflected from an unusually calm lagoon.

domingo, 7 de maio de 2017

Eu quero que tu saibas, acima de tudo,
que não entendo o sentido deste amor:
as noites frias de um inverno enclaustrado
ou o calor desgastante destas tardes
quando passeio e me recordo dos lugares que fomos juntos.
A manhã com vento no Alcázar
e tua saia voava como fazem as folhas dos salgueiros.
Quero que saibas, se não for moléstia,
que eu tenho saudades de:
teus risos, teu cabelo, teus detalhes pendentes de um fio,
aquele abraço lento e fugitivo no canto do parque
com um te quero muito e uma lágrima.

Lembro-me de teus passos na calçada
iam deixando sombras, e até à melancolia,
porque não é possível amar e ser amado
sem que venha a neblina
e desvaneça depois teus risos, teu cabelo,
e assim quero que tu saibas que te amo.

Javier Sanchez Menendez
Bela Princesa
o teu irmão
parte
o vaso que transportas.
Então
o raio reluz, o trovão ecoa,
a faísca vem.

Tu, princesa
dás-nos
a chuva,
e às vezes também
a geada
e a neve.

foi para isso
que o criador do mundo,
o deus que anima o mundo,
Viracocha,
te formou,
te deu a vida.

América do Sul, Quíchuas
in Rosa do Mundo
" Dejé las altas cumbres de
        La noche y me encontré cegado por
        La Nada. En todas partes siento que
        Percibí la misma sensación
       Del Náufrago que, desnudo, se instala
       A recuperar las antiguas máscaras
       Del Barco.
       Crucé un Círculo y otro de las vigilias
       Como con Virgilio y Dante,
       Hasta verme lanzado a las Ciudades
       De la salvación del mundo,
       Pero la desilusión fue más grande
       Todavía cuando supe que te habías
       Marchado "
      
         Ángel Leiva.


"Deixei os altos picos da
         Noite e me encontrei cego pelo
         Nada. Em todas as partes sinto que
         percebi a mesma sensação
        Do náufrago que, nu, se instala
        a recuperar as antigas máscaras
        Do Barco.
        Atravessei um círculo e outro das vigílias
        Como com Virgílio e Dante,
        Até me ver lançado às Cidades
        da salvação do mundo,
        Mas a decepção foi maior
        Todavia quando eu soube que tinhas
        ido embora"
     
          Ángel Leiva.

trad, aj c.
What makes you think you deserve to be happy?— Thigh High 








Mirror mirror, Murray Fredericks

Star Formation in the Tadpole Nebula 
 Image Credit: WISE, IRSA, NASA; Processing & Copyright: Francesco Antonucci
Explanation: What's all of the commotion in the Tadpole nebula? Star formation. Dusty emission in the Tadpole nebula, IC 410, lies about 12,000 light-years away in the northern constellation of theCharioteer (Auriga). The cloud of glowing gas is over 100 light-years across, sculpted by stellar winds and radiation from embedded open star cluster NGC 1893. Formed in the interstellar cloud a mere 4 million years ago, bright newly formed cluster stars are seen all around the star-forming nebula. Notable near the image center are two relatively dense streamers of material trailing away from the nebula's central regions. Potentially sites of ongoing star formation in IC 410, these cosmic tadpole shapes are about 10 light-years long. The featured image was taken in infrared light by NASA's Wide Field Infrared Survey Explorer (WISE) satellite.

sábado, 6 de maio de 2017

e·gres·so |é| 
(latim egressus, -a, -um, particípio passado de egredior, egredi, sair, afastar-se de, elevar-se, trepar)
adjectivo
1. Que saiu, que se afastou.
2. Que deixou de fazer parte de uma comunidade.
substantivo masculino
3. Indivíduo que deixou o convento.
4. Indivíduo que sai em liberdade depois de cumprir uma pena de prisão.
5. Acto ou efeito de sair ou de se afastar. = AFASTAMENTO, RETIRADA, SAÍDA


"egresso", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/egresso [consultado em 06-05-2017].

Hortus conclusus

From Wikipedia, the free encyclopedia
Hortus conclusus is a Latin term, meaning literally "enclosed garden". At their root, both of the words in hortus conclusus refer linguistically to enclosure.[1]
Hortus conclusus is both an emblematic attribute and a title of the Virgin Mary in Medieval and Renaissance poetry[2] and art, suddenly appearing in paintings and manuscript illuminations about 1330 [3] [4] as well as a genre of actual garden that was enclosed both symbolically and as a practical concern, a major theme in the history of gardening.[5]